Volto cá na mesma situação em que cá vim pela primeira vez. Diz-se que a história repete-se, mas eu nunca acreditei nisso. Talvez seja verdade até. Entro no bar onde em tempos era um hábito cá vir a diário. Tudo parece diferente mas igual. A decoração é quase a mesma, dá claramente para diferenciar o que é novo e o que já existia. Não venho cá há cerca de ano e meio, que me lembro foi antes de ter entrado na universidade. Deixei de cá vir pois em certa altura surgiram algumas confusões, nenhuma delas comigo, mas que me incomodavam. Por isso fui deixando de cá vir aos poucos até que nunca mais cá apareci.
Sento-me na mesma mesa que me sentava dantes. Pelo menos ainda está cá o local e a mobília como dantes, o local não me é de todo desconhecido. Olho em volta e não vejo ninguém conhecido. Tudo gente desconhecida e que ninguém sabe quem eu sou. Pode parecer mentira agora, mas em tempos quando entrava neste bar toda a gente me cumprimentava, era conhecido e querido de todos. Agora não vejo ninguém conhecido. Sou mais um entre tantos. Vejo que continua a haver algumas interacções mas tudo muito "sem sal". Perguntaram-me agora o que queria beber, por amor da santa, há ano e meio toda a gente sabia o que eu bebia! Aliás mal me sentava já vinha alguém trazer-me uma garrafa de James Martins à mesa e dois copos.
Enquanto beberico o ardente elixir escocês os meus olhos fixam-se no fundo do copo. Começo a pensar no nosso grupo. Éramos uns seis ou sete, era eu, o Marco, a Joana, uma enfermeira da qual não me lembro do nome, o Ricardo, uma rapariga ruiva que também não me recordo do nome, o Henrique e mais uns dois ou três que eram menos assíduos. No fundo estes eram os mais assíduos e encontrávamos-no cá quase todas as coisas. Não precisávamos de combinar nada, aliás alguns de nós nem mantinha contacto extra-bar. Mas era certo que a maioria do grupo atrás citado iria aparecer à noite para conversar e beber um copo. Havia todo o tipo de conversa ali, desde discussões acerca de ciências sociais - tínhamos pelo menos duas pessoas que trabalhavam na área no nosso grupo- a questões literárias em que discutimos grandes autores tais como Platão, Shakespeare, Marx, Tolstoi, Tolman, Kawabata, Kafta e outros autores conhecidos de todos nós. Que belos banhos de cultura havia ali. Se bem me lembro o Marco e a Joana eram os que tinha "mais cultura" a níveis literários. O Marco formou-se em uma "ciência social" que não vou aqui revelar. A Joana trabalhava numa editora em trabalhos de tradução. Ao mesmo tempo de que se falava de literatura, musica, cinema, pintura - nunca percebi muito de pintura mas gostava de acompanhar as conversas- havia também muita conversa de cordel principalmente na parte das meninas que facilmente diziam palavras em que lhes imprimia um duplo sentido e outrora aquilo que era uma conversa de cultura passava a uma "batalha" de gracejos e de indirectas um tanto ou quanto freudiano que dava para todos nos rir um pouco e espicaçar o nosso malfadado id. No fundo éramos todos diferentes mas estávamos ali todos com o mesmo propósito, passar um bom bocado falando de tudo um pouco e aprendendo e brincando uns com os outros.
Infelizmente começou a haver alguns conflitos com alguns "clientes" recém-chegados. Indivíduos que não compreenderam que este espaço era simplesmente para passar um "bom bocado" e não para criar confusões e excessos. Como eu vários membros do nosso grupo abandonou o bar. Houve uns tempos em que ficou mesmo quase vazio. Houve sempre alguns amigos que continuaram a ser fieis e não abandonaram os hábitos. Mas pelo que vejo também acabaram por mudar de ideias.
Enquanto pensava vem alguém ao meu encalço abrindo os braços e cumprimentando-me com grande entusiasmo. Era a tal ruiva de que não me lembrava o nome, finalmente uma cara conhecida! Continuo sem me lembrar do nome, não quis dar parte de fraco e perguntar-lhe. Retribuí o cumprimento e quando me preparava para perguntar o que era feito dos nosso antigos camaradas ela esboçou um sorriso e disse que estava só de passagem e que só me queria cumprimentar e dizer que já tinha saudades. Retribuí o sorriso, agradeci e despedimos-no um do outros. Ainda continua a mesma felizmente alguém conhecido. E o que será feito dos outros? Pelo que fiquei a saber a Joana ainda por cá aparece de tempos a tempos. Os outros deixaram de vir aos poucos e não mais cá apareceram. Infelizmente não lhes tenho o contacto. Minto. Do nosso grupo falo com a Ana quase todas as semanas. Tornámos-no grandes amigos. Com os outros há um ou outro que tenho no facebook mas nunca mais nos falámos. Enfim.
De qualquer modo é bom saber que ainda há alguém que nos conhece e que se lembra de nós. É nessa perspectiva que vou começar a aparece cá mais vezes e pode ser que com algum "jeitinho" o grupo que outrora era assíduo da casa o volte a ser daqui a uns tempos. Quem sabe?

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