terça-feira, 4 de junho de 2013

O conto prometido


Não. Ela não é uma diva. Nem tão pouco uma princesa. Ela remexe tudo onde passa. Ela não deixa nada nem ninguém indiferente à sua passagem. Tão depressa está embrenhada numa ternura característica e nos demostra a suavidade do seu ser, como no momento seguinte age como um chicote ziguezagueando pelo ar trocando as voltas ao que quer que se aproxime, mostra as garras e mostra a sua essência selvagem. Ela é como um furacão. Ela é uma mulher. Tem fibra, aço, doçura ternura e fragilidade, tudo dentro de um só corpo. Tudo dentro de um só coração. Tudo dentro de uma só alma. É uma mulher de armas, que não hesita em mostrar as garras e lutar pelo que quer, perseguir os seus sonhos, ou num devaneio, fazer o que lhe apetece. 

O seu cabelo castanho envolve-nos numa sensação de maturidade, confiança, entrelaça-nos a alma como se viesse de uma união entre a natureza e o Homem. O azul-esverdeado dos seus olhos oferecem-nos a sensação de conforto e ternura que alguma vez um ser-humano teve. O resto das características deixo ao critério dos leitores. 

Ao descer uma certa rua de Lisboa deparei-me com o prédio onde ela trabalha. Olhei para as janelas espelhadas e comecei a divagar sobre em qual janela estaria ela por detrás, senti um impulso que lhe poderia lançar uma pedrinha à janela num gesto de a chamar para abrir a janela, dizer que eu ali estava, a pensar nela. Ao mesmo tempo passava um vendedor de flores ambulante, indiano? marroquino? talvez. Senti-me tentado em comprar-lhe as flores todas, atravessar a rua, subir as escadas correndo até ela. Oferecer-lhe as flores num encontro improvisado, talvez sentido o mesmo que muitos sentiram ao entrarem à noite pela janela do quarto da sua amada na escuridão e silencio da noite para que se entregassem nas asas do amor, mas sempre com receio que alguém aparecesse e estragasse aquele segredo que só a eles lhe pertencia.
Foi assim que me senti. Queria dizer-lhe tudo. Ao invés disso, deixei ir o homem das flores sem lhe dizer nada. Caí em mim. Afinal não passo de mais um comum mortal embebido neste sentimento que é o amor. 
Continuei a descer a rua. 

Os movimentos começaram a deixar de ser tão fluídos. As pernas começava-me a doer. O telemóvel que ocupara a mão direita deu lugar a uma coisa de madeira, uma bengala reparei instantes depois. Custava-me andar direito. Tentei, mas desequilibrava-me, rendi-me à bengala. Não percebi o que me estava a acontecer. Seria um sonho? Estava no Rossio. parei. Fui até a uma montra ver-me ao espelho. No meu lugar estava um idoso magro e com as minhas feições. As costas um pouco curvas. Não sei explicar mas já me estava a encaminhar a custo até à casa havanesa no chiado. Não conseguia controlar os pensamentos e muito menos os meus movimentos tudo se descontrolara. Deixara de ter vontade própria para assumir um papel de uma marioneta. Ia em direcção ao chiado. Tudo se apagou. Fiquei amnésico. 
Senti uma mão a tocar-me no ombro e alguém a palrar umas palavras indecifráveis. O telemóvel voltou a estar na minha mão. Conseguia andar numa posição erecta, e já não tinha dores no corpo. A vista deixou de ficar turva e vi onde estava, perto dos armazéns do chiado. Como é que eu fui ali parar? Teletransporte? Não faço ideia. De novo volto a ouvir umas palavras vindas de alguém que me agarrava o ombro. As palavras clarearam, olhei para o lado esquerdo e ali se encontrava um amigo meu de longa data "Então pah? O que é que andas a fazer?" dizia-me ele. O que ando aqui a fazer? nem eu sabia como é que poderia responder? De repente uma cronologia passou-me diante dos olhos. Sei o que se passou. 
Atravesso a rua apressadamente. Ouço-o a gritar-me "Onde é que vais?" Do outro lado da rua já num passo apressado voltei-me para trás e disse-lhe Tomar decisões, meu amigo, tomar decisões! 

E foi o que fui fazer..... tomar decisões. 



Autoria; Marcel Goulot 

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