
Primeira vez que li Dostoiévski. Este livro contém dois contos. O primeiro dá titulo ao livro. Trata de um homem de quem toda a gente se ri, mas toda a gente o acolhe de bom grado. O próprio tem consciência de que é ridículo. E porque é que o acham ridículo? Pois bem é isso de que trata o conto. O protagonista era um homem alheado de tudo, nada lhe fazia sentido nada lhe tocava a alma. Para ele nada tinha significado. Cansando-se desta vivencia ele decide suicidar-se. Porque? Só porque sim. Vivia numa casa com outros inquilinos e até todos se davam bem. Nessa noite a caminho de casa uma rapariga a pedir socorro, que ele se nega, lhe atormenta a alma. Após chegar a casa colocou o revolver em cima da mesa para se matar. Adormeceu. Durante o sonho, viu a sua própria morte e visitou um planeta distante igual à Terra, um verdadeiro paraíso. Após a chegada dele essa paraíso desmorona-se em crime, desonestidade e uma panóplia de heresias. Após acordar o protagonista sente que foi a sua maneira de ver o mundo que causou todo o mal da sociedade é ele o culpado e tornou-se assim uma espécie de mensageiro que doutrinou o bem e tentava combater os males da sociedade. Era esta a razão de ele ser ridículo. Ninguém o levava a sério.
O segundo conto entitulado "O Ladão Honesto" trata de um indivíduo que alugou um quarto de sua casa a um alfaiate ex-militar. Certo dia entra um ladrão no hall da casa e roupa uma gabardina do dono da casa. Todos ficam indignados por não poderem ter feito nada para evitar a tal maçada. Certo dia à mesa o hóspede conta uma história sua. Havia um senhor muito pobre a quem ele costumava dar guarida. Esse senhor era um alcoólico e todo o dinheiro que tinha era para o álcool. Certo dia desapareceram duas peças de roupa que o alfaiate andava a costurar. Após grande azafama ninguém descobriu o ladrão embora sempre suspeitasse do pobre homem. Esse homem decide parar de beber, mas acaba por adoecer. Após adoecer e a relação de ambos ter esfriado o pobre homem decide, às portas da morte, confessar o crime. Fora ele o ladrão.
No fundo estes dois pequenos contos fazem um escrutínio do ser-se pessoa. muito carregado de simbolismo e sentimentos. No primeiro conto, o suicídio é tratado como uma solução mas que há beira de se matar o homem descobriu o sentido para a vida. Afinal o que ele precisava era que alguma coisa lhe desse sentido lhe fizesse sentir e que lhe desse algum alento à alma. Nó fundo os males da sociedade acontecem devido a darmos pouca importância ao que temos e ao nosso ser egoísta. É esta carga simbólica que retiro do primeiro conto.
Do segundo conto retiro o poder da amizade, de lealdade e do ajudar o próximo, pois mesmo sabendo quem era o ladrão o lesado nunca deixou de o ajudar e de lhe dar alguma dignidade até aos últimos momentos. Mesmo depois do crime confessado o criminoso foi perdoado. Porquê? Porque sempre fora uma pessoa honesta que caiu nos vis braços do alcoolismo mas não foi por isso que deixou de ser um bom homem. Por mais delitos que façamos ou por mais comportamentos desviantes que tenhamos, se, na nossa essência temos bom caráter iremos sempre no fundo ser boas-pessoas porque é o que está na nossa génese embora em certas alturas por questões do meio ambiente tenhamos que cometer ou não certos actos que nos envergonhem. Foi o que aconteceu ao pobre homem que para acalmar o vicio roubou. Não foi por maldade, foi mesmo para alimentar o vicio. Apercebendo-se disso o amigo nunca o abandonou embora a relação tenha esfriado.
Aconselho a todos a lerem estes dois contos. São muito interessantes e no meu caso atiçou-me a curiosidade para ler outras obras de Dostoiévski