Ao som de uma coladera lembrei-me de ti. Lembrei-me da primeira vez que dançamos música africana juntos. Estávamos os dois sós num local reservado à média luz, podíamos observar toda a multidão que parecia tão distante de nós dois. Lembro-me perfeitamente quando começou tocar esta música, tu achaste imensa piada e disseste-me que esta música não tinha nexo instrumental, eu segurei-te não mão e puxei-te para dançar, ao som africano. À mediada que íamos dançando eu ia-te cantando partes da música e tu sorrias. Esta é uma das minhas músicas favoritas desde pequenino. Acabaste por gostar do ritmo da música, quanto nos voltámos a sentar eu expliquei-te qual era a diferença ente funana, coladera e mornas. Todos eles são ritmos cabo verdeamos e cada um tem a sua onda e o seu ritmo. Mais tarde fui falar com a música e pedi que passasse esta música, e aí voltei a puxar o teu corpo junto para junto do meu como se fossemos um só, dançar em plena harmonia. Comecei por te sussurrar ao ouvido um pedido de desculpas por eu não ter jeito nenhum para dançar, tu retribuíste dizendo que estava a ir muito bem. Logo de seguida falei-te de que gostava de ir um dia contigo a Bolama. Queria ir à descoberta contigo, falei-te do meu sonho de conhecer a Guiné de uma ponta a outra, lembras-te? Lembras-te das confidencias que te fiz ao som desta ultima música? Acabei por te dizer o significado que a Guiné tem para mim. Acabamos por continuar imaginar os nossos planos enquanto dançávamos, será que ainda te lembras disto tão bem quanto eu? Eu lembro-me como se fosse agora, como se ainda estivesse com o teu corpo junto do meu enquanto dançávamos fora da multidão mas ao mesmo tempo tão junto dela. Senti-me como se estivesse numa bolha que nos separava do mundo, os relógios pararam e o mundo ficou estático, era só eu e tu, dois jovens cheios de sonhos e planos. Por infortúnio do destino nada foi realizável. O destino foi cruel, ou talvez foste tu que foste cruel tal como o destino. Mas as boas memórias perduram sempre e destas espero que nunca me deixem da memória.
Foram estas memórias que me assaltaram enquanto ouvia uma coladera desconhecida ao meu ouvido enquanto jantava. Às vezes o nosso inconsciente atraiçoa-nos lembrando-nos de coisas que pensávamos já esquecidas e assim queríamos que permanecesse.
