Passo os dias a ouvir pessoas a fazer queixas acerta do quanto gostariam de deixar o tabaco e o quão difícil se torna fazê-lo. A contrastar com essas pessoas ouço não-fumadores ou ex-fumadores a dizerem que o tabaco é um vício psicológico e que deixaram de fumar de um dia para o outro só com a força de vontade etc etc... Será isto mesmo assim?
Na realidade o fumo do tabaco contém certos componentes químicos que fazem libertar alguns neurotransmissores que geram prazer no fumador. O que acontece em termos biológicos é que o nosso cérebro tem uma das funções de manter o nosso organismo equilibrado. Acontece que ao estarmos a ingerir certas substancias estamos a quebrar o equilíbrio do corpo. Posteriormente, como o nosso cérebro é dotado de uma grande capacidade de adaptação, adapta-se aos novos níveis de dessa substancia e assume esses níveis como sendo o padrão normal. Quando há falta dessa substancias depois dá-se o chamado período de ressaca sendo que o organismos tem que se reajustar ao novo nível mais baixo de um dado composto químico. Biologicamente, seria mais fácil deixarmos de fumar sendo que passávamos um período de tempo a ressacar - como na bebida - e depois passava
Acontece que todos nós sabemos que as coisas não funcionam assim. Acontece que junto com o deixar de fumar vem uma enorme ansiedade... Digamos que para enganar o "vicio" biológico com alguma força de vontade e com alguns hábitos como comer pastilhas quando a vontade aparece é suficiente. O problema reside em nós sermos um "animal de hábitos". Isto é, agarrado á componente biológica vem uma data de componentes comportamentais e sociais, como por exemplo, tirar o cigarro do maço, o acto de o acender os movimentos de o levar à boca, o próprio local / ocasião que se fuma, etc.Tudo isto é uma enorme componente que contribui para a ânsia de pegar num cigarro e degustá-lo e aqui muitas vezes reside o problema para o ultrapassar. Um exemplo representativo disto é por exemplo um fumador em uma esplanada. Senta-se numa cadeira e ao mesmo tempo que bebe um café acende um cigarro e fica a saboreá-lo ao mesmo tempo que beberica o café e observa a rua. Dias mais tarde após ter deixado de fumar senta-se na mesma esplanada e pede um café, mas desta vez não fuma, mas certamente que consciente ou inconscientemente irá pensar "O que irei fazer com a mão que agora está livre sem o cigarro?"
ou "como posso ocupar a mão? o que é suposto fazer?". Estas dúvidas advém do simples facto dos hábitos comportamentais que foram adquiridos ao longo da vida do individuo e que agora estão a ser quebrados .
Outro exemplo são as ocasiões. Imaginemos outro fumador. Este está num restaurante onde é permitido fumar. Após um longo e saboroso almoço, bem acompanhado com uma boa bebida, e já indo nos cafés e com digestivos à mistura, o sujeito acompanhado com amigos à mesa "saca" um cigarro e enquanto o fuma pensa para si "este momento é a cereja em cima do bolo". Tempos mais tarde deixando já de fumar, proporciona-se uma situação semelhante, um almoço entre amigos bem bebido e no café com digestivos à mistura lá vem o pensamento inconsciente ou consciente da recordação de quando era fumador e de vir ao pensamento "agora é que sabia bem um cigarro.. ah.. mas não o posso fazer" e se houver um convite ou comentário de um dos presentes "queres um cigarro? então já não fumas?". E aí volta a angústia de ter de recusar e negar um prazer que lhe era dantes bem apreciado.
Desde já esclareço, caros leitores, que esta separação destes dois exemplos é só uma utopia minha, visto que estas duas situações se entrelaçam fortemente visto que o comportamento é influenciado pelo local e pela componente social na qual estamos envolvidos e vice-versa